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Coaching sensível à fé

Coaching com cavalos sensível à fé na a força, em Haia, Leiden e, a partir de 2027, em Tomar, para quem tem na fé ou no sentido da vida uma parte da sua recuperação. Não é acompanhamento pastoral e não se reza a não ser que queira. O cavalo não faz distinções: reage ao seu sistema nervoso, não à sua teologia.

Quando a fé faz parte da sua história

Para algumas pessoas, a fé é uma fonte de força. Para outras, uma fonte de confusão, vergonha ou dor. Ambas têm lugar aqui.

Na minha prática trabalho com pessoas para quem a fé, ou a sua perda, tem um papel na recuperação. Isso pode ser explícito: rezar, textos bíblicos, perguntas sobre Deus e o sofrimento.

Ou implícito: um anseio por algo maior, uma procura de sentido.

O que é trabalhar de forma sensível à fé?

Trabalhar de forma sensível à fé significa que abro espaço para a fé se isso for importante para si. Não imponho nada: nem orações nem textos bíblicos, a não ser que os queira. O que faço é levar a sério aquilo que a fé faz ao seu sistema nervoso, à sua identidade e às suas relações. Não separo o “espiritual” do “corporal”. É um só sistema.

Isto não é acompanhamento pastoral. Sou coach, não sou pastora. Mas compreendo a linguagem. E sei como a fé e o trauma se podem entrelaçar.

Para quem é isto?

Trabalho muitas vezes com pessoas que mascaram intensamente, com uma história de fé, e que lutam com burnout, trauma ou neurodivergência. Pessoas que não se sentem vistas nos serviços convencionais de saúde mental (“a minha psicóloga não compreende a minha fé”) nem na sua comunidade de fé (“não compreendem o meu trauma”).

Trabalho também com pessoas que duvidam da sua fé e querem falar disso em segurança. E com todas aquelas para quem o sentido faz parte da recuperação, seja qual for a sua origem.

Como é isso na prática?

Uma sessão com cavalos é sempre corporal. A fé entra quando é relevante.

Um cavalo que a convida a parar, e nisso reconhece algo de entrega. Um momento de ligação com o cavalo que se sente como oração. Um limite que aprende a estabelecer, também perante a sua comunidade de fé. Um salmo de lamentação que diz exactamente o que sente.

O cavalo não faz distinções. Reage ao seu sistema nervoso, não à sua teologia.

Fundamentação científica

As pessoas neurodivergentes processam o mundo de outra forma — com mais intensidade, em mais camadas, com maior sensibilidade àquilo que se move sob a superfície. Justamente as características que por vezes tornam o funcionamento diário mais pesado podem, num contexto espiritual, tornar-se uma porta de entrada. Narzisi e Muccio (2021) descrevem a hipersensibilidade sensorial e a filtragem cognitiva descendente reduzida como um a priori fenomenológico que predispõe as pessoas à experiência espiritual — não em sentido religioso, mas experiencial: estar conscientemente presente no momento, sem os habituais filtros cognitivos que amortecem esse contacto. Isto vai ao encontro de resultados da neuroteologia (Newberg), segundo os quais as experiências espirituais correspondem a perfis neurológicos específicos, mais frequentes em pessoas neurodivergentes.

Arora (2025) descreve no Journal of Spirituality in Mental Health como as populações neurodivergentes desenvolvem expressões espirituais próprias que nem sempre cabem nos quadros religiosos convencionais e que, por isso, permanecem por reconhecer e sem apoio. Isso tem implicações clínicas directas: as vivências de fé em pessoas neurodivergentes podem ser mais intensas, mas também mais vulneráveis — tanto no sentido positivo como no negativo. As comunidades religiosas assentam muitas vezes em expectativas sociais implícitas: a linguagem corporal certa, a medida emocional certa, a forma certa de participar. Para quem mascara muito ou é sensorialmente sensível, um culto, um grupo de oração ou um retiro podem, por isso, activar mais depressa o modo de sobrevivência do que a ligação espiritual.

Este risco não é hipotético. A investigação sobre trauma religioso em pessoas autistas diagnosticadas tardiamente mostra como o comportamento de máscara em contextos religiosos aumenta o stress internalizante e como a punição de comportamentos que são simplesmente neurodivergentes — stimming, evitamento social, processar de outra forma — pode deixar feridas profundas na fé. Ao mesmo tempo, a investigação de Biggs e Carter (2016) mostra que a força da fé em jovens autistas está significativamente associada a maior qualidade de vida nos domínios psicológico e social, desde que a comunidade de fé dê espaço à sua forma particular de participar.

Trabalhar de forma sensível à fé significa reconhecer essas camadas. Não adaptar a espiritualidade, mas o espaço em seu redor. Menos exigências implícitas de participação. Mais espaço para o silêncio, para o ritmo próprio, para uma vivência de fé que não tem necessariamente palavras nem visibilidade social. Investigação recente sugere que a sensibilidade de processamento sensorial (SPS) é uma variável mediadora na relação entre religiosidade e saúde mental: pessoas com SPS elevada vivem a religião com mais intensidade, com maior potencial tanto de cura como de dano. Isso faz do acompanhamento cuidadoso e informado não um luxo, mas uma necessidade.

Bibliografia

Arora, A. (2025). Spirituality, neurodiversity, and mental health: Understanding unique spiritual expressions among neurodivergent populations. Journal of Spirituality in Mental Health. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/19349637.2025.2548539

Biggs, E. E., & Carter, E. W. (2016). Quality of life for inclusive youth with intellectual disability in faith communities. Intellectual and Developmental Disabilities, 54(1), 13–26.

Narzisi, A., & Muccio, R. (2021). A neuro-phenomenological perspective on the autism phenotype. Frontiers in Psychiatry, 12, 691426. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8307909/

Newberg, A. B. (2010). Principles of neurotheology. Ashgate.

Underwood, L. G., & van Dyke, C. J. (2024). Religiosity/spirituality and mental health: The moderating role of sensory processing sensitivity. Humanities and Social Sciences Communications. https://www.nature.com/articles/s41599-024-04176-x

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